HINOS, UM TESOURO ESQUECIDO?



O desenvolvimento da hinologia para o culto reformado e evangélico é muito interessante. Antes da Reforma protestante a presença da música na igreja exigia uma performance artística. O público, por razões obvias, limitava-se a assistir as apresentações dos lindos corais enquanto entoavam canções sacras na forma monofônica do canto gregoriano e no estilo harmonioso do canto lírico. A Reforma protestante introduziu no culto o louvor congregacional permitindo que a congregação participasse da liturgia do culto. Desde cedo ficou patente a diferença entre o culto protestante e a missa celebrada no catolicismo. O culto nas igrejas reformadas era participativo, intenso e muito vivo, enquanto as missas eram verdadeiros monólogos permitindo assim aos fiéis somente assistir as clamorosas liturgias. O idioma usado na liturgia era outro diferencial, enquanto na missa católica usava-se o latim, basicamente falado pelos eruditos, no culto reformado a língua utilizada era a do povo comum. Esta mudança de paradigma mudou radicalmente a performance do culto tornando-o congregacional e integrativo. Para elevar o nível da mensagem nos cânticos, que em alguns momentos para se chegar ao nível das pessoas comuns, dado que na maioria era iletrada, muitos cânticos se tornaram áridos e sem profundidade. As igrejas reformadas intendiam que o evangelho deveria ser proclamado ao nível do entendimento do povo para oferecer-lhe a possibilidade de crescer espiritual, intelectual e socialmente. Desta forma, uma ênfase na educação se fez necessária e a formação de escolas e a oferta da educação pública, uma realidade entre os reformados. Seguindo este princípio, a publicação da Bíblia, impressa em tipos gráficos em 1452, foi fundamental assim como a confecção e publicação dos hinários impressos a partir do século XVI. O uso de uma linguagem clássica tanto para o texto bíblico como para os hinos no hinário contribuiu para elevar a cultura e o conhecimento do povo de Deus. Os reformadores entenderam o papel da música para a propagação e desenvolvimento da fé. Uma das primeiras denominações a explorar este recurso foram os metodistas. Somente Carlos Wesley escreveu 6500 hinos. Sobre isto Dornellas Wesley ressalta em Um Povo Chamado Metodista: “A música é uma parte muito importante do movimento Metodista que deve a ela certamente muito do seu êxito.” Segundo Dornelas, João Wesley ensinava que as letras dos hinos não deviam ser alteradas. Devia-se cantar com modéstia primando pela harmonia e a espiritualidade. Podemos observar que os hinos por isso se tornaram valiosas peças teológicas. Uma das mudanças percebidas no culto evangélico com a chegada da onda pentecostal foi a introdução dos “corinhos” no culto na tentativa de tornar o culto ainda mais participativo, considerando que o pentecostalismo atingira principalmente a classe pobre e iletrada. Com o passar do tempo um estilo mais rebuscado adornado de arranjos tornou nossos cânticos que antes eram simples “corinhos” em verdadeiras peças musicais. Em alguns lugares o louvor se tornou tão lírico que o emprego de músicos profissionais se fez necessário. Em outros, a imitação barata deste estilo, imposta pela falta de recursos em todos os sentidos, tem desestimulado a expressão congregacional, isto é a participação do povo. O pior acontece devido a perda de conteúdo nas letras que transformaram os cânticos numa especie de mantra em função da repetição quase interminável de seus refrões. Esta mudança comprometeu o objetivo da música no culto que sempre foi de promover adoração, edificação espiritual e propagação da fé. Creio que devemos fazer uma criteriosa seleção dos cânticos que vamos introduzir em nossos cultos. Considerando o conteúdo teológico, o estilo, ritmo apropriado para o momento do culto. Se o ministério de louvor não é apto para isso deve ser orientado pelo pastor ou então que se crie uma comissão para fazer um hinário virtual ou uma lista de Cânticos compatível com a visão estratégica e teológica da igreja. Diante disso, porque não reintroduzir os cânticos do hinário que já possuem uma seleção feita com muito critério a nível denominacional com a intenção de legar a igreja uma opção de hinos que expressam sua fé com conteúdo teológico, histórico e bíblico. Que o louvor em nossas igrejas siga o critério defendido por Wesley que dizia: “Seu cântico deve ser de tal ordem que o Senhor o aprove aqui e o premie quando vier nas nuvens do céu”

Bispo Roberto Amaral

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